Saiba como o marcapasso no cérebro mudou a vida de Antônio



A voz rouca ainda é resquício dos sintomas de Parkinson, mas quase nem incomoda o paciente Antônio Sidney Gomes, 66 anos. Isso porque, há quatro anos, cessaram os tremores intensos que o impediam até de sair de casa.
“Minha saúde ficou nota 10”, diz, baixinho, sobre o implante de um marcapasso no cérebro , tecnologia que desponta como caminho para tratar uma série de doenças neurológicas.



Já há duas décadas, o dispositivo cerebral usado em seu Antônio coleciona resultados positivos em quem tem Parkinson. Agora, os pesquisadores querem saber se a técnica traria benefícios para os doentes de Alzheimer , dores crônicas, depressão e obesidade. Os testes já estão em andamento em universidades do mundo todo, especialmente do Canadá e Estados Unidos.



O que faz os eletrodos de estimulação cerebral profunda uma possibilidade de caminho para doenças tão diferentes é o mecanismo de ação, explica o diretor da Comissão de Educação da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Henrique Ballalai Ferraz.

De acordo com ele, o cérebro funciona em partes e a comunicação entre elas é feita por circuitos de neurônios. Em comum, portadores de Parkinson, depressivos, obesos mórbidos, por exemplo, têm um desequilíbrio na ‘conversa’ entre as regiões cerebrais.

“Em geral, as doenças fazem com que uma dessas áreas do cérebro fique mais sensível do que a outra. O desequilíbrio pode resultar em sintomas variados”, diz o especialista ao descrever como sequelas do “curto-circuito” os movimentos involuntários, o esquecimento, a compulsão por comida ou a tristeza profunda.

A linha de investigação dos cientistas é que a estimulação constante, via marcapasso, inibiria o funcionamento exagerado de uma das áreas do cérebro alterada pelas doenças.

“Para o Parkinson, que consiste em uma produção irregular de dopamina, funciona”, diz o neurocirurgião brasileiro Claudio Côrrea que já realizou cerca de 400 cirurgias do tipo, uma delas em seu Antônio.

Indicação precoce

“O procedimento é indicado para pacientes que não reagem mais a medicação”, afirma Côrrea.

“Os resultados para Parkinson são muito contundentes e o índice de complicação é inferior a 1%”, garante.




Marcapasso cerebral mudou a vida de paciente com Parkinson
“Mas as chances de melhora são maiores para os casos tratados de forma precoce. Infelizmente, ainda temos uma demora na indicação da cirurgia pelos médicos que atendem pacientes, o que limita nossa atuação”, lamenta.

De olhos abertos

Para o paciente Antônio, os remédios mostraram-se ineficientes no controle dos tremores em menos de um ano após o diagnóstico da doença.

“Tremer era um problema horrível. Não só você sofre, mas quem está ao seu redor também”, lembra citando a angústia da companheira Luísa.

“Ele, que era a pessoa mais social do mundo, só queria viver recluso”, lembra a mulher.

Por isso, o caminho cirúrgico foi aceito prontamente pelo casal, mesmo após saberem que o marcapasso seria implantado por meio de anestesia local e com Antônio acordado.

“Assisti a tudo, de olhos bem abertos, e foi impressionante”, conta.

A necessidade de manter o paciente acordado se dá porque os movimentos involuntários em quem tem Parkinson não acontecem enquanto o doente está dormindo. Além disso, por meio de uma rede computadorizada, os cirurgiões precisam avaliar se as placas de titânio estão sendo implantadas exatamente no local danificado pela doença.

“Quando o perímetro cerebral lesionado é descoberto e acionado, a melhora é imediata . Precisamos deste aval no momento cirúrgico”, diz Cláudio Côrrea.

Antônio sentiu as mãos firmes segundos depois do cérebro ser operado.

“Três dias depois eu já estava em casa. Voltei a escrever e viver com independência”, conta ele, com caderno nas mãos, exibindo com orgulho a caligrafia perfeita.

Sintomas e não causas

Apesar dos resultados positivos, o especialista da Academia Brasileira de Neurologia ressalta que a indicação cirúrgica é paliativa.

“O marcapasso cerebral age no sintoma da doença e não na causa. Por isso, só é uma opção para quem não reage as alternativas mais conservadoras”, alerta Henrique Ballalai Ferraz.


A cirurgia é uma opção da medicina para uma parcela destes portadores mas ainda é só uma perspectiva de conduta terapêutica para os 21% de brasileiros que sofrem de depressão e os 16% que estão em fase avançada da obesidade, conforme mostram os últimos dados do Ministério da Saúde.

“As pesquisas com marcapasso cerebral para outras doenças neuropsíquicas ainda estão em andamento e os resultados não estão mensurados”, afirma o médico da ABN.

A experiência com os pacientes com Parkinson já mostrou que, a cada quatro ou cinco anos, é preciso voltar para mesa de cirurgia e trocar a pilha do marcapasso. Antônio acaba de recarregar o dispositivo que leva no cérebro.

“Neste intervalo, tive uma obstrução na veia cardíaca e coloquei um marcapasso no coração. Agora são dois dispositivos que me ajudam a viver plenamente bem. Um para a cabeça e o outro para os batimentos cardíacos, em perfeita sintonia.”

ig
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