Sobrevivente do 11 de Setembro conta por que veio viver na Paraíba

Naquele dia fiz tudo como habitualmente. Saí de casa às 7h30 e, como morava no norte de Manhattan, levei 30 minutos de metrô até o trabalho, na Broadway, a duas quadras do World Trade Center, onde faria uma apresentação a um supervisor. Trabalhava em uma empresa de telecomunicações e mostrava projetos de fibra ótica para empresas.

Cheguei à torre sul às 8h20, onde encontrei meu contato, que me levou para visitar alguns andares. Às 8h45 chegamos ao 73° andar e, pouco depois, vimos muita fumaça preta saindo do outro prédio, mas não ouvimos barulho.

Tentei ligar para minha mulher, mas o celular estava sem sinal. Despedi-me do supervisor, que precisava checar se era um incêndio em um dos andares de máquinas.

Peguei o elevador e, quando cheguei ao térreo, notei dezenas de sapatos femininos espalhados pelo chão. Só entendi quando uma mulher passou por mim e tirou os sapatos para correr melhor.

Do lado de fora, um morador de rua pegou uma cadeira no lixo e sentou-se para "apreciar o show". Foi quando houve um barulho muito alto e vi o segundo avião entrando no prédio do qual eu tinha acabado de sair. Não conseguíamos ver o céu, coberto de fogo, poeira e fumaça -era como um sonho. Por causa do barulho, até hoje tenho zumbido permanente em um ouvido.

Quando resolvi correr, uma pessoa caiu lá de cima bem na minha frente, a pouco mais de 20 metros. Era como se fosse um saco de sangue, que explodiu no chão. Não sobrou nada daquele ser.

Consegui falar com minha mulher e ela me disse para voltar ao escritório. Enquanto a maioria tentava fugir para o norte, voltei para o sul.



Edward Delfino ao lado da mulher, Ivana, em Lucena, litoral paraibano; ele dá aulas gratuitas de inglês para os moradores


Assim que chegamos, um policial disse que precisávamos evacuar o prédio, então voltamos à Broadway. Na avenida, ouvimos o barulho da torre norte desmoronando e vimos uma parede de fumaça vindo para cima de nós.

Aquela nuvem passou como se me empurrasse, não vi nada por alguns segundos, e uma poeira muito fina entrou em minha boca, nariz, ouvidos. Vomitei várias vezes.

Entrei novamente no prédio e consegui ligar para minha mulher. Ela também estava desesperada, porque suspeitava-se que houvesse armas químicas nos aviões e que estivéssemos infectados.

Meia hora depois, sentimos outro terremoto: era o segundo prédio desabando. Outra nuvem de fumaça encheu o escritório de fuligem. Demoramos para voltar a enxergar e vimos uma confusão imensa. Estávamos presos lá e não sabíamos o que fazer.

Ficamos ali até as 14h, quando decidimos ir para o norte de Manhattan. Caminhamos por mais de uma hora, já que o metrô estava fechado. Fiquei impressionado porque nunca tinha visto o Exército nas ruas de Nova York, com armas pesadas.

Cheguei à rua 60, onde o metrô já funcionava, e fui para casa. Cheguei perto das 18h e abracei minha mulher.

Fiquei sem sair de casa por um mês, assistindo à cobertura dos atentados na TV, em depressão profunda. Por dois anos, minha vida resumiu-se a lembrar daquele dia e visitar psicólogos e psiquiatras.

Fui diagnosticado com estresse pós-traumático e desenvolvi síndrome do pânico. Decidi sair de Nova York. Fomos para Niagara Falls, na fronteira com o Canadá, mas as feridas continuavam em ataques de pânico.

Por isso, depois de cinco anos, decidimos mudar para o Brasil. Como os pais de minha mulher moravam em João Pessoa, resolvemos comprar uma casa na praia de Fagundes, em Lucena.

Fui muito bem recebido aqui, o que me levou a tatuar no braço a bandeira do Brasil. Mas queria contribuir com algo efetivo. Decidimos dar aulas gratuitas de inglês para moradores, porque inglês é importante em um lugar que recebe muitos turistas.

Continuo me consultando com um psiquiatra e usando remédios para depressão, pânico e para dormir. Tenho pesadelos com frequência.

A cada 11 de setembro eu fico em casa, no quarto, com a porta fechada e a luz apagada, porque não quero contato com ninguém nem ouvir nada sobre os atentados. Parece que sinto o mesmo medo daquele momento que não quer ficar no passado.

Só estou dando esse relato porque faz 12 anos desde os ataques e as pessoas esquecem todo o horror daquele dia. Não quero que essa coisa me defina, mas todas as noites isso ficava na minha cabeça. Ainda fica. Não posso dizer que consigo ser feliz, porque não sou, mas ao menos no Brasil tenho a esperança de um dia voltar a ser.

http://www1.folha.uol.com.br/

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