Pastor acusado de estupro é suspeito de lavar dinheiro e ser ligado ao tráfico


Rio -  A igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias, palco de cultos fervorosos do pastor evangélico Marcos Pereira da Silva, era usada, segundo o Ministério Público, como local para o religioso estuprar mulheres.

Preso nesta quarta-feira pela Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), que investiga os crimes, o líder evangélico é réu em dois processos na 1ª e 2ª varas criminais de São João de Meriti.

Ele tem 10 dias para apresentar sua defesa à Justiça. As investigações não param e, para a polícia, o número de vítimas pode chegar a 20 mulheres.


Cultos do pastor Marcos eram fervorosos. Denúncia do MP afirma que religioso atacava mulheres e guardava armas nos templos | Foto: Uanderson Fernandes / Agência O Dia

“A existência do crime se extrai de todos os depoimentos constantes dos autos, desde as mulheres que sofreram violência sexual, bem como daqueles que deixaram a igreja e relataram os absurdos ocorridos dentro dos seus muros”, afirmou o promotor Rogério Lima.

Um apartamento de luxo de 400 metros quadrados, avaliado em R$ 8 milhões, na Avenida Atlântica, em Copacabana, também serviria para o pastor Marcos levar suas vítimas de estupro.

O alto valor do imóvel, que foi doado por um casal à Igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias, também leva os agentes da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) a investigar o líder religioso por lavagem de dinheiro.

“Esse imóvel nunca foi utilizado em favor da igreja. Só o pastor desfrutava dele, promovendo orgias com os fiéis do templo ”, afirmou o delegado da Dcod, Márcio Mendonça. A polícia ainda deve pedir à Justiça a quebra do sigilo bancário do casal que doou o apartamento para o templo.


O pastor também é investigado pelo crime de associação para o tráfico. O inquérito foi instaurado há um ano, depois que, em fevereiro de 2012, o líder do AfroReggae José Junior prestou depoimento à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) sobre supostas ameaças que o religioso teria feito ao grupo.

Uma das frequentadoras do templo é a irmã de Márcio Nepomuceno, um dos chefões do Comando Vermelho, preso em unidade federal. “As ligações com os criminosos estão sendo apuradas”, disse Márcio Mendonça.

A polícia investiga ainda relatos de que o líder religioso participaria de transações financeiras de traficantes de drogas e pediria a terceiros que guardassem altas quantias, sem explicação. Na delegacia, testemunhas das investigações garantem que as sessões de exorcismo promovidos pelo pastor eram falsas.

Justiça: "maquiavélico e perigoso"

O processo na Justiça aponta ainda que Marcos Pereira teria feito ameaças às vítimas para que elas não relatassem os abusos.

“Quando não queria ter relações com ele, logo era castigada, pois dependia das coisas dadas por ele para meu sustento”, diz vítima, ressaltando que o pastor ameaçava que ‘coisas horríveis poderiam acontecer’, caso ela fosse embora da igreja e que ‘Deus estava colocando ela à prova’.


Em culto no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, ‘passes’ em moradores | Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia

A Justiça foi categórica: tratou o pastor como uma pessoa ‘maquiavélica e perigosa’, além de afirmar que fazia ‘lavagem cerebral’ nas vítimas.

Vítimas foram abusadas quando ainda eram menores

Das seis possíveis vítimas que prestaram depoimento, três teriam sido atacadas quando eram menores de idade e fizeram denúncia na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Meriti. Em um dos casos, a vítima seria uma ex-mulher do pastor, que contou o crime à Dcod em 2012. Os dois foram casados até 1998.

Nos casos investigados há um ano pela delegacia, 30 pessoas já prestaram depoimento. Testemunhas disseram ainda que o religioso abrigava criminosos armados dentro da igreja. “Temos relatos de que ele encenava negociações com presos. Montava um teatro. Ainda é suspeito de ocultar armas em templos religiosos”, contou o delegado Márcio Mendonça.

Ainda segundo o policial, Marcos é investigado pelo homicídio da jovem Adelaide Nogueira dos Santos, em dezembro de 2006. Um dos três condenados em primeira instância pelo crime é Geferson Rodrigues dos Santos, sobrinho dele.


Pastor Marcos está preso em Bangu | Foto: Divulgação

O delegado informou que a moça teria sofrido tentativa de estupro pelo religioso e foi morta ao ameaçar ir à polícia. A prisão preventiva do pastor, decretada pela Justiça na última quinta-feira, teve base nos dois processos de casos ocorridos a partir de 1998.

Uma das mulheres relatou que foi abusada dos 13 aos 21 anos, período em que morou no templo. Ela diz ter sido obrigada pelo religioso a se relacionar com outras pessoas dentro e fora do templo, inclusive do mesmo sexo, e que depois tinha que orar e pedir perdão.

“O pastor fazia com que as mulheres se sentissem culpadas, possuídas pelo demônio. Ele se aproveitava da fraqueza da pessoa, dizia que era ‘homem de Deus’, mas em pelo menos dois casos agiu com violência”, afirmou o delegado.

Famoso por intermediar rebeliões

O pastor Marcos Pereira ficou famoso por intermediar rebeliões em presídios e por converter traficantes para a igreja. Também teve destaque no noticiário ao negociar a libertação de supostas vítimas que seriam assassinadas em tribunais do tráfico.

Em 2004, numa das maiores rebeliões em presídios da cidade, na Casa de Custódia de Benfica — que culminou com a morte de 31 pessoas —, ele foi chamado no terceiro dia pelo então secretário de segurança Antony Garotinho para negociar rendição dos detentos.

Testemunha ouvida pela Dcod afirma que o Comando Vermelho era mancumunado com o pastor para só liberar detentos na presença dele.


Pastor Marcos faz pregação em igreja | Foto: Léo Correa / Agência O Dia

Brigas com o AfroReggae

O pastor chegou a trabalhar em parceria com a ONG AfroReggae, na recuperação de jovens envolvidos com o tráfico de drogas e traficantes que cumpriram penas. A parceria acabou depois de troca de acusações entre o pastor e o líder do AfroReggae, José Júnior.

Segundo Júnior, Pereira teria envolvimento nos atentados cometidos por líderes do tráfico em 2006, com vários ônibus incendiados na cidade. Em 2012, José Júnior disse ainda que, se ele fosse morto, o culpado seria o pastor.

No Twitter, Junior comemorou ontem a detenção do pastor: “Quero agradecer a nova gestão da Dcod pelo excepcional trabalho nessa prisão”.



O Dia

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